Você tem TDAH ou usa telas demais? Entenda a diferença
Entenda o que pode estar por trás da sua dificuldade de concentração

Você abre o celular para responder a uma mensagem de trabalho. Minutos depois, percebe que rolou o feed das redes sociais, assistiu a vídeos curtos e esqueceu completamente o que ia fazer. No meio de tantas tarefas inacabadas, surge uma dúvida cada vez mais comum: “Será que eu tenho TDAH?”
A resposta rápida é: desatenção não é sinônimo de TDAH. Embora a dificuldade de concentração seja real e mereça atenção, hábitos digitais, sono inadequado, estresse, ansiedade e outros aspectos da vida também podem estar associados a dificuldades atencionais — sem que isso necessariamente configure um transtorno do neurodesenvolvimento.
1. O que realmente caracteriza o TDAH?
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade, associado a prejuízos importantes no funcionamento da pessoa. Em adultos, ele não se resume a esquecer as chaves ou se distrair ocasionalmente. Pode envolver dificuldades persistentes de organização, gerenciamento do tempo, conclusão de tarefas, controle de impulsos e manutenção da atenção, com repercussões no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos e na rotina.
Um aspecto fundamental é que o TDAH não começa subitamente na vida adulta. A investigação diagnóstica considera a presença de manifestações desde o período do desenvolvimento, sua persistência e os prejuízos em diferentes contextos (MATTOS et al., 2006; DIAS et al., 2007).
Por isso, perceber-se mais desatento nos últimos meses não é suficiente para concluir que existe TDAH.
2. E o que as telas têm a ver com a atenção?
Não há fundamento científico para afirmar que celulares ou redes sociais, por si só, causem TDAH. Entretanto, algumas dificuldades associadas ao uso intenso de telas podem se parecer com sintomas frequentemente atribuídos ao transtorno. Nosso cotidiano digital favorece alternâncias constantes entre mensagens, vídeos, notificações, redes sociais, trabalho e outras fontes de informação. Essa alternância frequente entre conteúdos e tarefas pode fragmentar a experiência de atenção e dificultar períodos prolongados de concentração.
Estudos brasileiros encontraram associações entre maior tempo de tela e indicadores relacionados à saúde mental. Entre universitários, maior exposição esteve associada a sintomas como dificuldade de concentração e memória, irritabilidade, insônia e fadiga. Entre adolescentes, maior tempo de tela também apresentou associação com sintomas de ansiedade, estresse e depressão (WINK et al., 2026; FRANCISQUINI et al., 2025). É importante destacar: associação não significa causa. Esses estudos não demonstram que as telas sejam responsáveis por esses sintomas nem que provoquem TDAH.
3. TDAH ou influência dos hábitos digitais: o que observar?
Não existe uma tabela simples capaz de diferenciar TDAH de dificuldades relacionadas aos hábitos cotidianos. O diagnóstico exige avaliação profissional.
Ainda assim, algumas perguntas podem ajudar você a compreender melhor sua experiência:
- Quando essas dificuldades começaram? Elas existem há muitos anos ou apareceram recentemente?
- Em quais situações acontecem? Apenas quando há celular e outros estímulos por perto ou também em diferentes contextos?
- Existe prejuízo significativo? As dificuldades interferem no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos ou na organização da vida cotidiana?
- Como estão seu sono, nível de estresse e saúde emocional?
- O que acontece com sua atenção quando você reduz distrações digitais?
Essas perguntas não servem para confirmar ou excluir TDAH. Elas ajudam a ampliar a percepção sobre aquilo que pode estar acontecendo.
E um detalhe importante: conseguir permanecer horas concentrado em um jogo, hobby ou assunto de grande interesse não exclui TDAH. A dificuldade envolve a regulação da atenção, e não simplesmente uma incapacidade absoluta de se concentrar (MATTOS et al., 2006).
4. Faça um experimento de 3 dias
Em vez de começar por um autodiagnóstico, experimente observar sua relação com os estímulos digitais durante três dias.
- Silencie notificações: mantenha ativos apenas os alertas realmente necessários.
- Afaste o celular: durante períodos de estudo ou trabalho, deixe o aparelho fora do campo de visão.
- Experimente a monotarefa: faça algumas atividades sem utilizar simultaneamente outras telas ou conteúdos.
- Observe sua experiência: ficou mais fácil terminar uma tarefa? Como ficou sua ansiedade? Você procurou automaticamente o celular quando sentiu tédio? Conseguiu sustentar a atenção por mais tempo?
O objetivo não é testar se você “tem ou não TDAH”. Trata-se apenas de observar quanto o ambiente digital participa da maneira como sua atenção funciona atualmente. Melhorar com a redução dos estímulos não exclui TDAH. Da mesma forma, continuar apresentando dificuldades não confirma o transtorno.
5. Quando procurar uma avaliação profissional?
Se as dificuldades de atenção, organização, impulsividade ou inquietação são persistentes, provocam sofrimento e interferem significativamente na sua vida, vale procurar uma avaliação profissional. O diagnóstico de TDAH em adultos é essencialmente clínico e exige uma investigação cuidadosa da história da pessoa, do desenvolvimento dos sintomas, dos diferentes contextos em que aparecem e dos prejuízos provocados. Também é necessário considerar outras condições que podem produzir dificuldades semelhantes (DIAS et al., 2007; MATTOS et al., 2006).
Por isso, testes rápidos, vídeos, conteúdos de redes sociais ou identificação pessoal com listas de sintomas não são suficientes para diagnosticar TDAH.
Eles podem despertar uma dúvida legítima. A resposta, porém, exige uma investigação mais ampla.
6. Talvez a pergunta precise mudar
Em vez de perguntar apenas: - “Eu tenho TDAH?”
Experimente começar por: - “O que está acontecendo com a minha vida e com a minha atenção hoje?”
Pode existir TDAH. Os hábitos digitais podem estar participando dessa dificuldade. Sono, ansiedade, estresse, sobrecarga e outros aspectos também podem influenciar — e mais de um desses fatores pode estar presente ao mesmo tempo.
Nem toda distração é patológica. Mas dificuldades persistentes que provocam sofrimento ou prejuízo merecem ser compreendidas com cuidado.
Antes de transformar uma dificuldade em diagnóstico, procure compreender quando ela aparece, há quanto tempo existe, em quais contextos acontece e como interfere na sua vida.
Carol Cruz Psicóloga Clínica - Atendimento psicológico para adolescentes e adultos.
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Referências :
- DIAS, G. et al. Diagnosticando o TDAH em adultos na prática clínica. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, v. 56, supl. 1, p. 9–13, 2007. SciELO
- FRANCISQUINI, M. C. J. et al. Associação do tempo de tela com sintomas de estresse, ansiedade e depressão em adolescentes. Revista Paulista de Pediatria, v. 43, e2023250, 2025. SciELO
- MATTOS, P. et al. Painel brasileiro de especialistas sobre diagnóstico do transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) em adultos. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, v. 28, n. 1, p. 50–60, 2006. SciELO
- WINK, G. R. et al. Tempo de tela e prevalência de sintomas de transtorno mental comum em acadêmicos de Medicina de uma universidade comunitária do sul do Brasil. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, v. 75, 2026.











