A Importância de Falar em Primeira Pessoa: Como o "Eu" Fortalece a Saúde Mental
O impacto de trocar o "você" pelo "eu" no seu diálogo interno e nas suas relações

Você já reparou na frequência com que usamos expressões como “a gente sente...” ou “você fica chateado quando...” para falar de experiências que, na verdade, são nossas? À primeira vista, essa escolha parece apenas um detalhe de linguagem. Entretanto, a maneira como descrevemos aquilo que sentimos também pode revelar a forma como nos posicionamos diante da própria experiência.
Na Gestalt-terapia, falar em primeira pessoa é um recurso utilizado para favorecer a apropriação daquilo que está sendo vivido. Expressões como “eu sinto”, “eu penso”, “eu quero” e “eu preciso” ajudam a delimitar quem está vivendo determinada experiência, reduzindo generalizações e ampliando a awareness sobre sentimentos, pensamentos, sensações e necessidades (ZINKER, 2007).
Isso não significa que utilizar expressões como “a gente”, “você” ou até falar de si de maneira mais distanciada seja necessariamente prejudicial. A própria pesquisa psicológica demonstra que o distanciamento linguístico pode, em determinadas circunstâncias, auxiliar na regulação emocional (KROSS et al., 2014; MOSER et al., 2017). A questão, portanto, não está simplesmente no pronome utilizado, mas em perceber como utilizamos a linguagem naquele momento e o que acontece conosco ao mudar a maneira de falar.
Quando a fala impessoal afasta da experiência
Imagine alguém dizendo: - “Você fica meio perdido quando acontece isso.”
Agora compare com: - “Eu fico perdido quando isso acontece.”
Na segunda formulação, a pessoa identifica explicitamente aquela experiência como sua. Na prática clínica gestáltica, essa mudança pode funcionar como um experimento: ao trocar uma formulação genérica por uma afirmação em primeira pessoa, torna-se possível observar o que muda emocionalmente naquele momento.
- Pode-se ter maior clareza.
- Pode ser que surja desconforto.
- Pode-se perceber uma necessidade que antes estava pouco nítida.
- Talvez nada mude.
É justamente essa observação da experiência presente que importa.
A Gestalt-terapia valoriza essa apropriação da experiência e propõe, entre suas orientações de comunicação, falar em primeira pessoa para reduzir generalizações e favorecer a responsabilização por aquilo que se sente e expressa (ZINKER, 2007).
Colocar sentimentos em palavras
Há também evidências experimentais de que transformar experiências emocionais em palavras interfere na maneira como elas são processadas.
Esse fenômeno é estudado na psicologia como affect labeling, ou nomeação emocional. Em um estudo clássico, Lieberman e colaboradores (2007) observaram que nomear emoções diante de estímulos negativos estava associado à redução da atividade da amígdala e de outras regiões relacionadas à resposta emocional.
Pesquisas posteriores reforçaram que colocar sentimentos em palavras pode influenciar a experiência emocional, embora os efeitos dependam da situação, do momento e da estratégia de regulação utilizada. Por isso, nomear emoções não deve ser entendido como uma técnica universalmente benéfica ou como garantia de redução do sofrimento.
Ainda assim, conseguir identificar e expressar “o que está acontecendo comigo” oferece uma possibilidade importante de contato com a própria experiência.
O que muda quando digo “Eu”?
Assumir a narrativa em primeira pessoa pode favorecer alguns movimentos importantes.
- Apropriação da própria experiência: dizer “eu estou com raiva” é diferente de transformar aquela experiência em uma afirmação genérica como “a gente fica com raiva”. O primeiro modo delimita mais claramente quem sente.
- Ampliação da awareness: ao dizer “eu sinto”, “eu quero”, “eu percebo” ou “eu preciso”, a pessoa é convidada a observar aquilo que acontece consigo no momento presente.
- Responsabilização sem culpabilização: assumir que uma emoção é minha não significa afirmar que sou culpado por tudo aquilo que aconteceu comigo. Responsabilização diz respeito a reconhecer minha experiência e minhas possibilidades de resposta, sem desconsiderar o contexto ou a responsabilidade das outras pessoas.
- Comunicação mais clara: falar a partir da própria experiência também pode diminuir interpretações apresentadas como fatos. Existe diferença entre dizer “você não se importa comigo” e “eu me senti pouco considerado quando isso aconteceu”. A segunda formulação comunica a experiência de quem fala sem transformar imediatamente uma interpretação sobre o outro em uma verdade absoluta.
Um cuidado importante: falar em primeira pessoa não é uma regra
Usar o “Eu” não deve se transformar em mais uma obrigação.
Há situações em que criar certo distanciamento da experiência pode ser regulador. Estudos de Kross et al. (2014) e Moser et al. (2017), por exemplo, mostram que pensar sobre si utilizando o próprio nome ou pronomes não pertencentes à primeira pessoa pode favorecer o distanciamento psicológico e auxiliar na regulação de emoções em determinados contextos.
Isso é importante porque impede uma conclusão simplista:
- Primeira pessoa = saudável
- Terceira pessoa = fuga emocional
A experiência humana é mais complexa.
Na Gestalt-terapia, a proposta não é fiscalizar palavras, mas utilizá-las como pistas para ampliar consciência.
Como experimentar falar em primeira pessoa?
Observe frases cotidianas nas quais você utiliza “você”, “a gente”, “todo mundo” ou expressões genéricas ao descrever algo que aconteceu especificamente com você.
Por exemplo:
“Quando acontece isso, você fica muito inseguro.”
Experimente dizer:
“Quando isso acontece, eu fico muito inseguro.”
Depois, pare por alguns segundos e observe:
O que muda em mim quando digo dessa maneira?
Outro exemplo:
“As pessoas ficam irritadas quando fazem isso com elas.”
Experimente:
“Eu fico irritado quando fazem isso comigo.”
Novamente, observe sua experiência.
Você também pode experimentar completar frases como:
“Eu sinto...”
“Eu percebo...”
“Eu preciso...”
“Eu gostaria...”
“Eu escolho...”
“Eu tenho dificuldade de...”
O objetivo não é encontrar uma formulação perfeita, mas perceber com maior clareza aquilo que é seu naquele momento.
Apropriar-se do “Eu” não significa ignorar o contexto, individualizar todo sofrimento ou assumir responsabilidades que pertencem aos outros.
Significa poder reconhecer:
“Esta é a minha experiência agora.”
E, a partir desse contato, compreender melhor o que você sente, aquilo de que precisa e como deseja se posicionar diante da situação.
Carol Cruz Psicóloga Clínica - Atendimento psicológico para adolescentes e adultos.
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Referências :
- ZINKER, Joseph C. Processo criativo em Gestalt-terapia. 2. ed. São Paulo: Summus, 2007.
- LIEBERMAN, Matthew D.; EISENBERGER, Naomi I.; CROCKETT, Molly J.; TOM, Sabrina M.; PFEIFER, Jennifer H.; WAY, Baldwin M. Putting feelings into words: affect labeling disrupts amygdala activity in response to affective stimuli. Psychological Science, v. 18, n. 5, p. 421–428, 2007. DOI: 10.1111/j.1467-9280.2007.01916.x.
- KROSS, Ethan et al. Self-talk as a regulatory mechanism: how you do it matters. Journal of Personality and Social Psychology, v. 106, n. 2, p. 304–324, 2014. DOI: 10.1037/a0035173.
- MOSER, Jason S. et al. Third-person self-talk facilitates emotion regulation without engaging cognitive control: converging evidence from ERP and fMRI. Scientific Reports, v. 7, art. 4519, 2017. DOI: 10.1038/s41598-017-04047-3.
- GONDIM, Sonia Maria Guedes et al. Evidências de validação de uma medida de características pessoais de regulação das emoções.
Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 28, n. 4, p. 659–667, 2015. DOI: 10.1590/1678-7153.201528403.











