Fome de quê?
A compulsão alimentar como uma mensagem do organismo em busca de conforto e equilíbrio.

A compulsão por doces é frequentemente confundida com falta de controle ou “fraqueza”. Na prática clínica, essa leitura é limitada e pouco útil. O que aparece como um impulso alimentar irresistível é, na maioria das vezes, uma estratégia aprendida para lidar com sentimentos difíceis. Não se trata apenas de comida, mas de como regulamos o que sentimos.
O papel do açúcar na regulação emocional
A literatura científica aponta que o comportamento alimentar funciona como uma estratégia de regulação emocional diante de estados como ansiedade, tristeza e estresse (Costa et al., 2019). O açúcar promove a liberação imediata de dopamina, gerando uma sensação momentânea de prazer e alívio. Contudo, estudos recentes demonstram que cerca de 76% das pessoas que enfrentam a compulsão identificam a ansiedade como o principal gatilho (Openheimer et al., 2024). Sob estresse crônico, o cérebro aumenta a busca por alimentos "hiper-palatáveis" como uma tentativa de sobrevivência biológica (Vales et al., 2026).
O que o seu corpo está tentando dizer?
Dentro de uma visão holística, o desejo intenso por açúcar raramente é sobre o nutriente em si. A "doçura" é a linguagem do conforto e do aterramento. Muitas vezes, esse impulso sinaliza que algo interno se sente vazio, exausto ou desamparado. A ciência atual descreve isso como uma falha na consciência interoceptiva (Teixeira; Leal, 2024), que é a nossa capacidade de perceber sinais internos. Sem essa clareza, o cérebro interpreta qualquer desconforto emocional, solidão ou cansaço, como "fome de doce".
Por que a restrição não é o caminho?
Tentar controlar a compulsão através de dietas rígidas costuma intensificar o problema. A lógica do “não posso” aumenta a tensão interna e a culpa, alimentando um ciclo de restrição seguido de perda de controle. Para transformar essa relação, é necessário:
- Desenvolver a pausa: Aprender a observar o impulso sem reagir imediatamente a ele.
- Identificar a necessidade real: Nomear o sentimento (ex: "estou sobrecarregado(a)") ajuda a reduzir a urgência da comida.
- Buscar confortos alternativos: Às vezes, o calor de um chá ou um momento de descanso supre a necessidade que o açúcar apenas mascarava.
O caminho da psicoterapia
Lidar com a compulsão exige tempo e consistência. O espaço terapêutico é fundamental para que se reconstrua autonomia emocional, transformando o ato de comer de uma fuga em uma escolha consciente. Conforme apontam Branco et al. (2024), o papel do psicólogo é facilitar essa reconexão, permitindo que o comportamento alimentar deixe de ser um problema isolado e passe a ser compreendido dentro da história de vida do sujeito.
Carol Cruz Psicóloga Clínica - Atendimento psicológico para adolescentes e adultos.
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Referências Bibliográficas (SciELO / PePSIC)
- Branco, N. S. C., et al. (2024). Regulação emocional e o papel do psicólogo no comportamento alimentar. Revista Ibero-Americana de Humanidades.
- Costa, M. B., et al. (2019). Comportamento alimentar e emoções: uma revisão integrativa. SciELO Brasil.
- Openheimer, R., et al. (2024). Ansiedade, depressão e compulsão alimentar. PePSIC.
- Silva, A. R., & Bastos, M. S. (2018). Relação entre regulação emocional e compulsão alimentar. SciELO Brasil.
- Vales, P. F. O., et al. (2026). A influência do estresse crônico no desenvolvimento da obesidade: impacto da alimentação emocional. Revista JRG de Estudos Acadêmicos.











