"Tenho Depressão" ou "Sou Depressivo"?
O Que Dizem a Neuropsicologia e a Gestalt-terapia

Quando o sofrimento emocional se prolonga por muito tempo, a linha entre quem nós somos e o que estamos sentindo começa a desaparecer. No consultório, não é raro ouvir: "Será que estou passando por uma fase difícil ou eu simplesmente nasci assim?". Quando convivemos com o desânimo crônico por meses ou anos, passamos a acreditar que a depressão se tornou nossa própria identidade.
Mas o que a neuropsicologia e a Gestalt-terapia têm a nos dizer sobre isso? É possível que a depressão seja uma característica fixa de quem somos, ou estamos falando de uma forma temporária de existir?
Entendendo a diferença científica: Estado vs. Traço
Para a psicologia e a psiquiatria, existe uma distinção importante entre o que é um estado (um episódio agudo e temporário) e o que é um funcionamento persistente (uma condição crônica):
- O Estado (Estar com depressão): Refere-se a um episódio agudo e delimitado no tempo. É o momento em que a pessoa apresenta uma mudança brusca em seu comportamento habitual (com tristeza profunda e perda de interesse), mas que difere de como ela viveu na maior parte da vida.
- O Funcionamento Persistente (Ter depressão estrutural): Ocorre quando os sintomas são persistentes e de longo prazo. Investigações apontam que a manutenção da depressão muitas vezes está ligada a fatores de vulnerabilidade individuais e vivências adversas no início do desenvolvimento (Bahls, 1999). Como a pessoa opera sob essa ótica por muitos anos, a sensação interna é de que a doença se misturou com a sua personalidade.
No entanto, estudos de neuroimagem demonstram que o que parece um "traço imutável" de personalidade é, na verdade, uma resposta cristalizada ao longo do tempo, um padrão de circuitos cerebrais hipoativos ou hiperativos que se consolidou devido ao estresse crônico (Lacerda et al., 2003).
A Visão da Gestalt-terapia e a Neurobiologia do Ajustamento Criativo
A Gestalt-terapia, com seu olhar humanista que sempre considera a realidade e o momento de vida de cada um, traz uma visão libertadora que combina perfeitamente com as descobertas neuropsicológicas atuais: a depressão não é uma característica permanente colada na pessoa, e ninguém "é" depressivo. Nós entendemos a pessoa sempre em relação à história e ao momento de vida dela. Em algum período da jornada — muitas vezes na infância ou em fases de muita sobrecarga —, para conseguir suportar e sobreviver emocionalmente a um ambiente doloroso, frio ou sem afeto, a pessoa precisou segurar sua energia e se fechar para o mundo.
Na abordagem gestáltica, chamamos isso de ajustamento criativo. O problema é que essa resposta, que antes foi necessária para proteção, se repete de forma automática mesmo quando o cenário muda. A depressão, portanto, é uma forma de funcionamento congelada, uma 'forma de estar no mundo' em que a pessoa perdeu a flexibilidade de reagir de outras maneiras (Cardoso; Perazzo, 2013). Do ponto de vista neuropsicológico, esse ajustamento corresponde a uma resposta de sobrevivência mediada pelo sistema nervoso autônomo. Para proteger o organismo do esgotamento, o cérebro entra em um estado de inibição defensiva. O problema é que essa resposta se repete de forma automática através de redes neurais fortalecidas pelo hábito.
É possível transformar o "ser" em um "estar"?
A ciência moderna refuta a ideia de que o cérebro e a personalidade são rígidos na idade adulta. Se você sente que a depressão moldou a sua estrutura, saiba que o ser humano é um organismo em constante processo de autorregulação e atualização. A mente e a personalidade não são rígidas. A transformação desse padrão crônico é plenamente possível através de evidências clínicas:
- Neuroplasticidade Dependente de Experiência: Estudos demonstram a capacidade do cérebro de remodelar suas conexões sinápticas a partir de novas experiências (Castrén, 2005). Ao desenvolver a awareness (tomada de consciência no presente) na terapia, o cliente estimula o córtex pré-frontal, ajudando a regular o centro do estresse no cérebro e promovendo a reorganização dessas redes neurais.
- Restauração do Contato e Regulação Interpessoal: A neurobiologia interpessoal comprova que o cérebro é moldado através das relações. A experiência de um encontro autêntico, horizontal e acolhedor na relação terapêutica é o principal fator de mudança clínica (Frazão, 2005; Norcross, 2011). Isso permite que o sistema nervoso do cliente saia do modo de defesa crônico e reaprenda a se abrir para o contato seguro.
- Integração e Remissão Clínica: A associação entre a psicoterapia e, quando indicado, o suporte farmacológico, atua diretamente na restauração de neurotransmissores e funções executivas que estavam comprometidas, como memória, atenção e flexibilidade cognitiva (Gualtieri et al., 2006).
O Resgate da sua Autonomia
Se a depressão se transformou na lente através da qual você enxerga a si mesmo, lembre-se: essa lente foi colocada pelo seu organismo como uma tentativa legítima de proteção, mas ela não define a sua identidade.
Compreendê-la como um modo de funcionamento aprendido e biologicamente reversível, e não como uma sentença de personalidade, é o primeiro passo para retomar as rédeas da sua história. O suporte terapêutico adequado permitirá que você explore novas formas de existir, devolvendo a fluidez, a neuroplasticidade e a vitalidade à sua vida.
Carol Cruz Psicóloga Clínica - Atendimento psicológico para adolescentes e adultos.
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Referências Científicas (SciELO & Literatura Internacional):
- BAHLS, Saint-Clair. Aspectos clínicos da depressão maior na infância e adolescência. Jornal de Pediatria, v. 75, n. 5, p. 309-318, 1999.
- CARDOSO, Cláudia Lins; PERAZZO, Solange. A clínica gestáltica contemporânea: considerações sobre o sofrimento e a psicopatologia. Revista da Abordagem Gestáltica, v. 19, n. 2, p. 219-225, 2013.
- CASTRÉN, Eero. Is antidepressants efficacy born of plasticity?. Nature Reviews Neuroscience, v. 6, n. 3, p. 241-246, 2005.
- FRAZÃO, Lilian Meyer. A postura clínica em Gestalt-terapia. Estudos de Psicologia (Campinas), v. 22, n. 4, p. 439-445, 2005.
- GUALTIERI, C. Thomas et al. Neurocognitive effects of clinical depression. Journal of Clinical and Experimental Neuropsychology, v. 28, n. 2, p. 245-272, 2006.
- LACERDA, Aude Henin et al. Neuroimagem estrutural e funcional na depressão. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 25, p. 39-42, 2003.
- NORCROSS, John C. Psychotherapy relationships that work: Evidence-based responsiveness. Oxford University Press, 2011.
SPIELBERGER, Charles D. State-Trait Anxiety Inventory for Adults. Palo Alto, CA: Mind Garden, 1983.











