Brain rot
Como o consumo excessivo de conteúdo digital pode afetar a saúde mental

O uso constante de redes sociais, vídeos curtos e plataformas digitais tem transformado como as pessoas consomem informação. Com isso, um termo passou a ganhar destaque recente: brain rot. Embora não seja um diagnóstico clínico, o termo tem sido utilizado para descrever uma sensação de fadiga mental, dificuldade de concentração e atenção, associada ao consumo excessivo de conteúdos digitais superficiais e fragmentados (Oxford University Press, 2024).
Com isso percebemos uma preocupação com os impactos do ambiente digital sobre o funcionamento psicológico e cognitivo, principalmente em um cenário de estímulos constantes e pouco espaço para pausas reflexivas e conexão consigo mesmo.
O que se entende então por brain rot?
O termo brain rot pode ser entendido como uma metáfora para a percepção subjetiva de empobrecimento cognitivo ou cansaço mental, onde percebe-se sintomas como sensação de mente “turva”, diminuição e dificuldades no foco e na memória e dificuldade em sustentar tarefas que exigem atenção prolongada (Santos & colaboradores, 2024).
Embora ainda não exista consenso científico que reconheça o brain rot como condição médica, estudos recentes apontam que a exposição prolongada a conteúdos digitais rápidos e repetitivos pode estar associada a sobrecarga cognitiva e aumento do estresse psicológico (Wilmer, Sherman & Chein, 2017).
Evidências científicas sobre consumo digital e saúde mental
Pesquisas em psicologia e neurociência indicam que o uso excessivo de plataformas digitais pode impactar processos como atenção, regulação emocional e memória de curto prazo. Um estudo publicado na Scientific Reports sugere que altos níveis de consumo digital estão associados a maior ansiedade, impulsividade e dificuldade de autorregulação, especialmente em adolescentes e jovens adultos (Kühn et al., 2025).
Além disso, o fenômeno conhecido como doomscrolling — consumo contínuo e automático de conteúdos, muitas vezes negativos ou irrelevantes — tem sido relacionado ao aumento do estresse percebido e à piora do bem-estar emocional (Price et al., 2022).
Esses achados não indicam que a tecnologia seja, por si só, prejudicial, mas reforçam que a forma de uso desempenha papel central nos efeitos psicológicos.
Então quais os impactos psicológicos do uso excessivo do digital?
Do ponto de vista da saúde mental, o consumo digital intenso e pouco consciente pode contribuir para:
- redução da capacidade de concentração sustentada
- aumento da ansiedade e da irritabilidade
- sensação de esgotamento mental
- maior dificuldade de contato consigo mesmo
- dificuldades momentâneas de memória e atenção
- sensação de distanciamento emocional ou desconexão do momento presente
Esses efeitos tendem a ser intensificados quando o uso ocorre de maneira automática, sem reflexão ou limites claros, e quando substitui experiências presenciais, descanso ou atividades com significado (Twenge, 2019).
O que tudo isso nos convida a refletir?
O debate em torno do brain rot revela mais do que um modismo linguístico. Ele aponta para uma necessidade contemporânea de repensar a relação com o consumo de informação, o ritmo de estímulos e a ausência de pausas mentais.
Do ponto de vista psicológico, cuidar da saúde mental envolve também escolher o que se consome (em todos os sentidos), reconhecer sinais de sobrecarga e desenvolver uma relação mais consciente com o ambiente digital. Estratégias simples, como estabelecer limites de tempo, alternar atividades online e offline e observar os efeitos emocionais do uso das telas, já demonstram benefícios para o bem-estar psicológico (Wilmer et al., 2017).
Esse cenário evidencia o impacto das redes sociais na saúde mental, especialmente quando há excesso de estímulos digitais. A psicoterapia pode auxiliar nesse processo de consciência e cuidado, oferecendo um espaço de reflexão sobre hábitos, impactos emocionais e formas mais saudáveis de se relacionar com o mundo digital.
Carol Cruz Psicóloga Clínica – Atendimento psicológico para adolescentes e adultos
Referências:
Kühn, S., Gallinat, J., Mascherek, A., & colaboradores. (2025). Digital media use, anxiety and cognitive overload in adolescents. Scientific Reports, 15, 24472. https://doi.org/10.1038/s41598-025-24472-z
Oxford University Press. (2024). Brain rot named Word of the Year. Oxford Languages. https://www.oxfordlanguages.com
Price, M., Legrand, A. C., Brier, Z. F., & Hébert-Dufresne, L. (2022). Doomscrolling during the COVID-19 pandemic. Computers in Human Behavior Reports, 6, 100197. https://doi.org/10.1016/j.chbr.2022.100197
Santos, R. et al. (2024). Brain rot: ciência, impacto mental e vídeos curtos. Sociedade Paulista de Psiquiatria e Medicina do Sono. https://sppdms.org.br
Twenge, J. M. (2019). More time on technology, less happiness?. Journal of Happiness Studies, 20, 2005–2025. https://doi.org/10.1007/s10902-018-0027-1
Wilmer, H. H., Sherman, L. E., & Chein, J. M. (2017). Smartphones and cognition. Frontiers in Psychology, 8, 605. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2017.00605








