BBB, Manipulação Midiática e Saúde Mental: Como o Reality Afeta Você no Dia a Dia
Reality shows, julgamento coletivo e saúde mental: o impacto em quem está fora da casa

O Big Brother Brasil (BBB) costuma ser apresentado como entretenimento leve, mas, na prática, funciona como um produto midiático cuidadosamente construído para capturar atenção, gerar emoção e manter engajamento constante. Enquanto o público se ocupa com votações, conflitos e torcidas, ocorre um fenômeno menos visível: a moldagem da forma como sentimos, interpretamos e julgamos as situações, com impactos diretos na saúde mental cotidiana.
A pergunta que vale ser feita não é apenas sobre os participantes, mas sobre o espectador: “Até que ponto o que você sente ao assistir é espontâneo, e até onde é resultado de uma construção midiática?”
A narrativa editada e a manipulação de afetos
Reality shows operam por meio de técnicas clássicas de storytelling. A edição organiza cenas, silêncios, repetições e trilhas sonoras de modo a simplificar a complexidade humana. Para que a narrativa funcione, o cérebro do espectador é conduzido a reconhecer rapidamente quem é “mocinho” e quem é “vilão”.
Esse tipo de narrativa maniqueísta, baseada na oposição entre bem e mal, facilita o engajamento emocional, mas cobra um preço. O consumo frequente desse formato pode treinar o espectador a julgar de forma rápida, superficial e polarizada. No dia a dia, isso se reflete em menor tolerância às ambiguidades e aos erros das pessoas reais.
Estudos em psicologia das mídias indicam que a repetição de narrativas simplificadas tende a reduzir o pensamento crítico e a favorecer respostas emocionais automáticas (Penteado, 2009).
Vigilância constante que gera ansiedade compartilhada
Ao assistir ao BBB, entramos em um estado de aprendizagem vicariante: aprendemos e reagimos emocionalmente ao observar a experiência do outro (Bandura, 1986). Quando alguém é "cancelado" publicamente, nosso cérebro ativa mecanismos de alerta: “isso não pode acontecer comigo”. Mesmo sem estar na casa, o corpo reage ao conflito, elevando níveis de cortisol, estresse e tensão.
O “tribunal da internet” como projeção e fuga emocional
O engajamento intenso nas votações funciona muitas vezes como um deslocamento emocional. Ao direcionar raiva a um participante, o espectador expressa emoções que, por vezes, dizem mais sobre sua própria vida do que sobre o reality. A cultura do cancelamento oferece uma sensação momentânea de superioridade moral, mas pode servir como fuga de conflitos pessoais não elaborados.
Entendendo o efeito manada
O efeito manada ocorre quando pessoas passam a adotar opiniões do grupo para evitar conflitos ou exclusão social. No ambiente digital, isso segue um ciclo perigoso:
- Discurso dominante: A opinião mais curtida vira “verdade”.
- Medo do isolamento: Opiniões divergentes são silenciadas (espiral do silêncio).
- Validação social: Repetir o grupo gera aprovação (dopamina).
- Desumanização: O alvo deixa de ser visto como pessoa.
Do entretenimento ao desgaste psicológico
O limite é ultrapassado quando o consumo se torna compulsivo ou gerador de ruminação. Para quem assiste, isso pode se traduzir em cansaço mental, piora do sono e maior reatividade emocional (Twenge, 2019).
Como consumir sem adoecer: consciência no lugar da reatividade
- Questione a edição: Que emoção essa cena quer provocar?
- Observe seu corpo: Tensão e irritação são sinais de alerta.
- Lembre-se da complexidade humana: Pessoas não são personagens fixos.
Quando buscar ajuda psicológica?
Vale considerar acompanhamento quando o envolvimento com as redes gera ansiedade persistente, aumenta conflitos interpessoais ou dificulta o desligamento mental. A psicoterapia oferece um espaço para construir uma relação mais saudável com a mídia e consigo mesmo.
Carol Cruz Psicóloga Clínica – Atendimento psicológico para adolescentes e adultos
Referências:
Bandura, A. (1986). Social Foundations of Thought and Action.
Noelle-Neumann, E. (1993). The Spiral of Silence.
Penteado, J. R. A. (2009). A influência da televisão no comportamento social. SciELO.
Wendt, G. W. et al. (2013). Agressão entre pares no espaço virtual. SciELO.
Twenge, J. M. (2019). More time on technology, less happiness?.
Foucault, M. (1987). Vigiar e Punir.








